E agora, um trecho da entrevista

ovo

P: Ovo frito?

R: Não exatamente. Existe uma pequena diferença, muto sutil mesmo, na hora do preparo. Quando eu estava no Vietnã, bem depois da guerra (devo ser a única pessoa no mundo que conta uma história do Vietnã fora de um contexto belicoso – e também que responde verbalmente com parênteses bem verificáveis), conheci um cozinheiro que fazia um ovo assim, fantástico, todo batido e misturado com várias outras coisas típicas daquele lugar, a maioria eu nem conhecia. Eu cheguei lá achando que seria obrigado a experimentar uma receita de ovo enterrado, deixado por dias apodrecendo debaixo da terra. Depois, me disseram que esse era um procedimento típico dos chineses, e que ninguém era obrigado a comer aquilo, nem mesmo na China. Fiquei bem aliviado e bastante empolgado para experimentar o ovo deles. Mas isso foi muito depois, e essa questão do ovo me preocupou por bastante tempo, e odeio perder tempo preocupado com alguma coisa. Não conseguia trabalhar e nem aproveitar nada por causa desse ovo podre enterrado. Enfim, não é frito, é assado.

Quero ser velho

nebraska

O Nebraska fica longe, muito longe. Essa é uma das poucas coisas com que todos os personagens do filme homônimo (Nebraska, EUA, 2013) concordam. Apesar disso, o velho Woody Grant (Bruce Dern) está convicto de que vai chegar até o estado da região central dos Estados Unidos, mais precisamente na cidade de Lincoln, para resgatar um tão valioso quanto fantasioso prêmio de 1 milhão de dólares supostamente conquistado em uma propaganda de revista. É nessa toada que o diretor Alexander Payne (do também road movie “Sideways – Entre umas e outras”) inicia o filme, indicado a seis estatuetas do Oscar 2014, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado.

 O restante da família Grant, claro, não embarca nas maluquices de seu patriarca e o censura de todas as formas possíveis. Chega a dar pena do velho trôpego, que tem apenas no seu filho mais novo, David (Will Forte), alguém que parece se importar com seu bem-estar nessa, digamos, reta final da vida. A esposa, Kate (June Squibb), e o filho mais velho, Ross (Bob Odenkirk), querem apenas que o velho vá para um asilo e deixe de dar trabalho para a família. Arma-se então um road movie de primeira quando David resolve dar vida aos devaneios do pai e parte com o velho rumo ao Nebraska, em busca de uma fortuna que não existe em dinheiro, mas quem sabe em descobertas e experiências familiares antes inexistentes na família Grant.

 Coletivo de velhos

Em “Nebraska”, Payne desenhou um mundo no qual tudo é chato, sem graça, sem cor, e o que de melhor já aconteceu está apenas na memória – sentimentos simbolicamente representados pelo laconismo crônico de Woody, para quem tudo parece estar “mais ou menos” e “vamos indo, sem novidades”. Junta-se a ele uma coletividade de velhos cheios de manias e vivendo em uma velocidade bastante peculiar, fato ilustrado por cenas hilárias. A única coisa capaz de movimentar a vida e o interesse dos aposentados foi a recém-conquistada condição de milionário de Woody.

A memória, no sentido de regate do passado, se mostra como um dos principais aspectos do filme – não, Woody não tem Alzheimer. Pelo contrário, o velho tem lúcidos todos os acontecimentos que moldaram sua atual personalidade, que aos poucos se revelam enquanto a família faz uma parada estratégica na pequena cidade rural onde Woody cresceu, e que agora inveja sua “fortuna”.

As consequências desse road movie familiar são ortodoxas e previsíveis – mas inovar nesse sentido não parece ter sido a intenção de Payne, que se apropriou da máxima popular que postula a felicidade como um processo, e não um fim. A salvação dos Grant não estava, de fato, na bolada de Woody, mas sim em tudo o que fizeram para persegui-la (ou negá-la), mesmo sendo ela fictícia. Fim das contas, os Grant viajaram mesmo em busca de uma fortuna, e de certa forma, a encontraram.

Amenequeu finalmente entendeu

amenequeu

Amenequeu era considerado por todas as pessoas o maior sábio do mundo, apesar de ser muito humilde. Quando descobriu sua fama, quis tentar entender os motivos pelos quais as pessoas tinham tal ideia dele. Enquanto pensava, pesquisava e confabulava sobre o assunto, quis também estar ciente dos quês e porquês de todas as outras coisas – afinal, não era ele a pessoa mais sábia do mundo? Amenequeu então percebeu que, quando esperava o verde, vinha o azul, quando postulou que choveria, fez sol e tempo aprazível, quando proferiu palavras dóceis, vieram ríspidas declarações, e vice-versa.  E passou a não compreender mais o mundo, e tampouco por que ainda o chamavam de sábio. De tanto pensar e se decepcionar com a falta de respostas e modelos precisos, cansou. Conhecer os motivos de todas as coisas e as causas de todos os fenômenos não era mais sua prioridade, e passou a viver sem essas respostas. O fim da escalada de curiosidade infinita, das preocupações e das noites em claro tentando entender o mundo trouxe frescor à mente de Amenequeu, que finalmente entendeu: ser sábio é, na verdade, entender que nem tudo tem um porquê – e quando tem, nem sempre precisamos conhecê-lo.

Mania

mesa

A discussão caminhava bem, de forma controlada. Eu estava firme em meus argumentos, achando até um pouco de graça em tudo aquilo. Não me importava perder ou ganhar a disputa, apenas descrever com minúcias meu ponto de vista enquanto jantávamos, uma vez que concordávamos serem as refeições bastante tediosas se feitas em total silêncio. Dado momento, devo ter exagerado em alguma colocação e ela começou a parecer irritada, apesar do semblante ainda calmo, como sempre. Quando nesse estado, ela costumava trocar as coisas de lugar, mesmo que com centímetros de diferença. Pegou a garrafa com cuidado, ergueu-a, setenciou – de forma decisiva, a meu ver – e colocou-a novamente em cima da mesa, um pouco mais perto da travessa, mas muito próxima da borda da mesa. De minha parte, reconheço que me incomodam objetos mal distribuídos em cima de qualquer superfície, sobretudo próximos das bordas, onde a ação da gravidade é impiedosa. Levantei da cadeira o suficiente para alcançar a garrafa sem abandonar minha posição na mesa, peguei-a e reposicionei-a mais ao centro da mesa, em total segurança – tudo isso bem na frente dela, que observava atônita, descrente e preparada para uma hecatombe. Foi quando começaram os problemas de verdade: mania contra mania.

Tigre

tygra

Escreva sobre passarinhos, me disseram, pois não há forma de fazer lirismo e cantar às estrelas sem falar das criaturinhas passarais. Mas tanto não quero falar deles que escolho outro animal: o tigre. Em revoada, os tigres migram por sobre os oceanos e entre os continentes, aproveitando as benesses das correntes de ar – na verdade, das complicadas e emocionalmente instáveis relações entre correntes frias e quentes, que já foram tema de aproximadamente dezenove canções épicas. Oriundos de reinos insulares onde rios fantásticos brotam de encostas impossíveis e florestas de árvores cujos troncos e folhas têm as mesmas cores no verão e as cores do céu no inverno, os tigres viajam em busca de paz para procriar, levar a espécie através dos séculos e milênios e, quem sabe, construir uma civilização felina. Aqueles dotados de mais de dez adjetivos (como os descritos aqui) chegam a desenvolver linguagem, cultura, e escrevem poemas sobre sabiás-laranjeira.

Sempre errar

1966 nery azulejo 016

Erro: tento me apegar em demasia ao que pretende ser eterno e não é. Essa perversa mania faz com que tudo o que acaba um dia me puxe para baixo, fundo no ocaso das coisas e dos mundos. Subir de volta não é tarefa das mais fáceis, e no caminho digo a mim mesmo e a todos os meus eus que a força não vem dos vínculos, e prometo só me prestar àquilo que começa e se encerra hoje. Em essência, eterno é aquilo que dura o que tem que durar, cumprindo desígnios e deixando somente a sensação de que não há mais nenhuma ponta e nenhuma lacuna. Chego ao topo, e erro: o eterno está novamente à minha frente, pronto para que eu novamente abrace suas causas e me leve, cedo, tarde, sempre e nunca, para o fundo.

Verbo sem complemento

silhueta-de-mulher

Apesar de não ter derramado lágrima alguma, a sentença que ela começou a dizer já vinha carregada de muita tristeza. Tempos depois disso, passei a pensar em como as pessoas reagem de diferentes formas a sentimentos adversos, basicamente com choro e sem choro. Ela estava sentada na beirada do sofá, em cima de uma das pernas dobradas, enquanto a outra apoiava o resto do corpo com os pés no chão, quando repentinamente parou de falar sem concluir a frase que havia começado. O verbo, sem complemento e sem sentido, transformou-se em um par de sobrancelhas franzidas, acentuando o efeito curvo e belo que elas já possuíam, em um misto de decepção, clarividência e epifania. Braços e mãos já haviam desistido de reger o raciocínio, jazidos à frente do corpo. Olhou para baixo por alguns longos segundos, depois levantou a cabeça e olhou para o alto, como se eu já não estivesse mais ali, em um nível superior de diálogo e consciência. Neste momento eu soube: ela rezava.

Débora não leu

sebo2

Débora não leu. Não há então como saber se Débora, em hábito, segura o livro mais abaixo ou mais acima na página, pois não há nenhuma daquelas solenes marcas de dedos em lugar algum. Débora não aprecia Borges, não quis descobrir tantos universos quanto Borges imaginou. Débora não é daquelas pessoas que vislumbra com orgulho sua própria estante de livros; não os organiza de diferentes maneiras e não os desorganiza com igual prazer. Débora vendeu Borges, intacto, a um sebo. Como em rixa imaginária, Débora gosta mesmo é de Cortázar.

True Story: “Ficções”, de Jorge Luis Borges, intacto, comprado em um sebo, continha em sua folha de rosto uma dedicatória, transcrita sem alterações: “Débora, desejo podas descobrir tantos universos como Borges imaginou”.

Epístola dois

after party

Ocram, 29 de julho de 2001

Pai,

Uma pena mesmo que você não tenha vindo ao nosso casamento. Servimos aquele peixe que tio Seld fazia nas noites de ano novo e contratamos aquela mesma banda de jazz e blues que se apresentava nos clubes de Faggio. Você gostava muito dessas coisas, não é mesmo? Ainda gosta, se o conheço bem.

A gente se surpreende muito com as pessoas. Sabe aqueles modelos de comportamento de que falam os conselheiros de vida? Dizem que, se tal pessoa deixa de falar com você durante um certo tempo, significa que você não significa mais nada para ela. Sei que estou, estive e sempre estarei coberta de ingenuidade (é o que me diferencia de você), mas acho que esses conselheiros nem sempre estão certos. Estão quase sempre errados, aliás. Não sabemos o que e como as pessoas pensam, e qual o efeito que o tempo têm no pensamento. Digo isso porque, como disse logo acima, a gente se surpreende muito com as pessoas, e eu me surpreendi muito com a sua manifestação, depois de quase quinze anos de silêncio.

Quer odiar Marb um pouco mais? Não ligo. Ele disse que eu não deveria responder à sua carta. Aliás, ele não sabe que estou fazendo isso. Aliás, se você não odiasse Marb, não seria você mesmo, e eu não gostaria de saber dessa “perda” de sua identidade e características de discordar e odiar tudo o que eu faço. É porque eu sou como você – também gosto muito do peixe do tio Seld e também da banda de jazz e blues que ouvíamos quando morávamos em Faggio. E não é só isso.

Se isso o deixa mais tranquilo, não tivemos lua-de-mel.

Por favor, pare de falar de mamãe dessa maneira.

Epístola um

city landscape 1

Retlesen, 03 de julho de 2001

Querida filha,

Não sei se este é o momento certo para este tipo de coisa, e nem se a coisa em questão é válida – mas eu queria muito pedir perdão por não ter comparecido ao seu casamento. Sim, é verdade, aconteceu não porque houve algum impedimento maior, e sim por conta de uma talvez injustificada posição de minha parte. Não sei se Marb é a pessoa certa para você, apesar de saber que quem decide isso é você mesma, mas gostaria que entendesse que tenho ressalvas sobre o rapaz. Ele faz o que mesmo? Capas de livros? Enfim, gostaria muito do seu perdão e de poder falar com você novamente, mas só com você. Se me permite mais um de meus perversos caprichos, nada de reuniões familiares por enquanto.

Vou me considerar perdoado se você eventualmente responder a esta carta. Espero ansiosamente e com um pouco de tédio, pois a vida aqui em Retlesen anda um pouco parada. E também úmida demais – eu deveria ter imaginado antes que morar perto de um rio não seria fácil. Sua mãe não reclama mais disso, você sabe. Ela, aliás, anda muito calada ultimamente, não tem falado mais comigo. Eu compreendo. Enfim, mudar para cá, no fim das contas, foi uma decisão acertada, principalmente por causa das condições atuais de sua mãe. E quando você vem nos visitar? Eu disse você, só você.

Espero que esteja tudo bem com o seu novo emprego. Ainda acho que você seria mais bem-sucedida se tivesse aceitado aquele cargo no serviço público, mas acabei acatando o que sua mãe disse a respeito, antes de tudo aquilo acontecer: que você seria realmente feliz e “bem-sucedida” (as aspas são por minha conta) fazendo isso que você faz hoje. Ah, e se você responder a esta carta, coisa que eu gostaria muito que acontecesse, por favor, não diga nada sobre coisas como lua-de-mel, viagens, e afins. Não estou preparado ainda.

Fique bem, cuide-se.

Abraços de seu pai.